16/09/2019

O samba carioca e a crítica à ideologia do fim da centralidade do trabalho

Na interconexão entre o samba carioca e a sociologia crítica do trabalho, o curso se propõe a debater em que medida o samba se apõe como linha de resistência ao processo histórico de usurpação do trabalho alheio, mais especificamente no que concerne a seu potencial de crítica ao discurso ideológico de crise da sociedade do trabalho. Tal proposta passa também pela investigação sobre como a cultura, materialmente inserida nas relações sociais, constrói discursos contra-hegemônicos tendentes a contestar as desigualdades vigentes.

De início, propõe-se um resgate histórico de episódios ligados à formação e ao desenvolvimento do samba carioca, com foco para sua trajetória de resistência. Posteriormente, pretende-se analisar a amplitude do conceito trabalho, passando por sua dimensão intersubjetiva e cultural. Na sequência, debruça-se sobre a problemática do discurso de fim da centralidade do trabalho vivo na sociedade hodierna (seu surgimento no pensamento social europeu, sua importação e sua apropriação pelo ideário neoliberal). Por fim, partindo da obra de Bezerra da Silva, Candeia, bem como do Samba do Trabalhador e da produção carnavalesca, busca-se abordar a contestação, pelo samba carioca, ao discurso de crise da sociedade do trabalho.

Objetivo:

O curso objetiva, a partir do aporte da cultura popular e da sociologia do trabalho, aproximar os inscritos de debates críticos sobre o samba carioca e as relações de trabalho brasileiras. Tendo como norte tal premissa, adota-se, como objetivo central, perquirir em que medida o gênero musical samba (tomando as expressões sonora e escrita em conjunto), que resistiu à escravidão e às constantes tentativas de perseguição, disciplinamento e exploração, traz em si a potencialidade contestatória ao discurso ideológico de superação da centralidade do trabalho vivo como chave de compreensão das relações sociais hodiernas. E a ideia é fazê-lo sem cair no persistente risco das categorizações, reunindo sambas que abordam a temática sob viés crítico, não importando a forma como o fazem (se com crítica direta, com ironia, com a exaltação do trabalho verdadeiramente livre ou mesmo com outros recursos). Ainda, tendo em vista que toda produção de conhecimento envolve sempre uma tomada de posição axiológica, pretende-se situar o debate teórico na realidade em que se insere, reconhecendo sua historicidade e sua conexão com os problemas de seu tempo. Para tanto, o estudo busca partir, sempre que possível, da materialidade das relações laborais e da produção musical no Brasil.

Destinatários:

Graduandos e graduados em ciências sociais aplicadas, ciências humanas, linguística, letras e artes, bem como em áreas afins.

Docente responsável:

Profª Ma. Bruna da Penha de Mendonça Coelho [Currículo Lattes]

Mestra em Teoria e Filosofia do Direito pelo PPGD/UERJ e graduada em direito pela mesma universidade. Professora substituta de Prática Trabalhista da Faculdade Nacional de Direito (UFRJ). Realizou intercâmbio acadêmico na Universitat Jaume I (Castellón de la Plana, Espanha) em 2013.2. Possui textos literários publicados, dentre os quais o romance “Do outro lado da Alcântara: Devaneios quase póstumos” (Editora Juruá, 2016). Pesquisou samba carioca na dissertação de mestrado, com foco para a interconexão entre a cultura popular e a sociologia crítica do trabalho.

Código de área do conhecimento (CNPq):

7.00.00.00-0 Ciências Humanas
7.02.07.00-3 Outras Sociologias Específicas

Palavras chave:

Samba carioca, Contestação, Ideologia do fim da centralidade do trabalho.

Ementa:

[Aula 1]
Samba e resistência

Objetivo:
A primeira aula objetiva analisar, de início, a formação do samba carioca, passando pela influência da tradição do samba rural baiano e por uma análise das condições de vida do proletariado urbano carioca nas primeiras décadas do século XX. Na sequência, propõe-se a abordagem de episódios ligados ao desenvolvimento do samba carioca, com especial atenção para sua trajetória de resistência às constantes tentativas do poder dominante de perseguição, disciplinamento, ampliação das desigualdades, apagamento da memória coletiva e mercantilização da cultura. Nessa  esteira, passa-se pela criminalização da vadiagem, pela formação das primeiras escolas de samba, pela derrubada da Praça Onze, chegando ao controle mais incisivo do capital sobre o carnaval e a produção artística.

Bibliografia:

ALZUGUIR, Rodrigo. Wilson Baptista: o samba foi sua glória. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

LOPES, Nei. SIMAS, Luiz Antonio. Dicionário da história social do samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. 2ª edição. Rio de Janeiro; Secretaria Municipal de Cultura, Dep. Geral de Doc. e Inf. Cultural, Divisão de Editoração, 1995.

MUSSA, Alberto; SIMAS, Luiz Antonio. Samba de enredo: história e arte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.


[Aula 2]
Trabalho e cultura

Objetivo:
Abordar a amplitude do conceito trabalho, tendo em vista a noção primeira de trabalho enquanto atividade vital consciente. Busca-se perquirir, a partir desta análise, a centralidade axiológica do trabalho vivo, bem como os efeitos deletérios do processo de inversão da consciência operado pela alienação do trabalho.

Pretende-se abordar, ainda, as relações entre trabalho e cultura, a partir da compreensão de que a própria noção de trabalho abarca não só um aspecto objetivo, no sentido transformar objetivamente o mundo, mas também relações subjetivas, comunicativas e culturais, por ser uma atividade tipicamente social e intersubjetiva.

Bibliografia:

BRAZ, Marcelo (Org.). Samba, Cultura e Sociedade: sambistas e trabalhadores entre a questão social e a questão cultural no Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2013.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Trad. Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2008.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Trad. Rubens Enderle. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2017.


[Aula 3]
O discurso ideológico de crise da sociedade do trabalho

Objetivo:
Objetiva-se suscitar uma análise crítica sobre o discurso ideológico de superação da centralidade do trabalho vivo na sociedade hodierna.

Para tanto, passa-se pelo seu surgimento no bojo do giro antiprodutivista do pensamento social europeu, com especial atenção para as obras de Jürgen Habermas e Claus Offe, bem como por uma abordagem crítica dos principais argumentos de seus defensores (financeirização da economia, desenvolvimento tecnológico, declínio da ética do trabalho). Passa-se também por uma análise de sua recepção no Brasil e seu reflexo na justificação de medidas neoliberais de austeridade no atual contexto político- econômico brasileiro (com foco para as investidas legais de 2017 que caracterizaram a chamada reforma trabalhista).

Bibliografia:

ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2009.

HABERMAS, Jürgen. A nova intransparência: a crise do estado de bem-estar social e o esgotamento das energias utópicas. Tradução de Carlos Alberto Marques Novaes. Revista Novos Estudos, 18ª ed., vol. 2, edição de setembro de 1987.

OFFE, Claus. Trabalho: a categoria-chave da sociologia? Disponível em:
http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_10/rbcs10_01.htm. Acesso em: 24 jun. 2018.


[Aula 4]
O samba carioca e a contestação ao mito do fim da centralidade do trabalho vivo

Objetivo:
A última aula, a partir do aporte teórico das aulas anteriores, objetiva perquirir, de forma mais direta, a contestação ao discurso de crise da sociedade do trabalho pelo samba carioca.

Para tanto, confere-se especial atenção à produção musical do último quarto do século XX e seus reflexos na produção contemporânea, com destaque para o repertório musical de Bezerra da Silva e Candeia, para a história do Samba do Trabalhador e para a potência contestatória dos quatro dias de glória do carnaval (incluindo a marchinha, o samba de enredo e o histórico desfile de 2018 do G.R.E.S. Paraíso do Tuiuti).

Bibliografia:

BRUNET, Daniel. Segunda-feira: a história do Samba do Trabalhador. Rio de Janeiro: Sonora Editora, 2016.

NETO, Simplício; DERRAIK, Márcia. Documentário Onde a coruja dorme (TvZERO, 2002).

VARGENS, João Batista M. Candeia: luz da inspiração. Rio de Janeiro: Almádena, 1987.

VASCONCELOS, Jack. Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão? Sinopse do enredo da Paraíso do Tuiuti para o carnaval de 2018.
Disponível em:
http://liesa.globo.com/2018/por/03carnaval/enredos/paraiso/paraiso.htm. Acesso em: 18 out. 2018.


Cronograma:

Inscrições com 15% de desconto:
De 16/09/2019 (Segunda-feira) a 22/09/2019 (Domingo)

Inscrições:
De 16/09/2019 (Segunda-feira) a 17/11/2019 (Domingo)

Curso:
De 18/11/2019 (Segunda-feira) a 15/12/2019 (Domingo)

+ info via WhatsApp

+ info via Facebook Messenger

Reservar vaga